Fazenda Nata da Serra

Fazenda Nata da Serra

A Chef Daniela Prytoluk visitou a Fazenda Nata da Serra, produtora orgânica de laticínios e vegetais. Encantada com o que viu, divide no Amélia com Vaidade um pouco da sua vivência em uma dia repleto de aprendizado.

 

O meu crescente interesse pela influência da alimentação na qualidade de vida e saúde em geral me levou a sair do mundo das receitas e testes para os livros e artigos técnicos.  E o destino se encaminhou para que hoje eu esteja na pós-graduação em Gastronomia Funcional da Famesp (site com as informações do curso aqui). O curso é voltado para nutricionistas e gastrônomos, com conteúdo bem focado. Depois de tantos anos, me vejo aplicando os conhecimentos básicos adquiridos nas aulas de biologia e química da adolescência.

Confesso que entrei no curso sem saber bem o que esperar, pois não conhecia ninguém que tivesse estudado na Famesp. E por saber que a área de estudo em si é cheia de mitos e ainda está em desenvolvimento. E claro que falando em alimentação funcional e saudável, também falamos sobre orgânicos!

Para não ficar só na teoria, a grade curricular contempla uma visita técnica à uma unidade produtora de alimentos orgânicos. Este semestre a visita foi à Fazenda Nata da Serra, produtora de laticínios em Serra Negra, São Paulo. Foi um dos dia muito especial e que me fez ter ainda mais convicção do caminho que quero para minha vida pessoal e profissional. Incluo o novo enfoque para receitas e postagens aqui do Amélia com Vaidade. Pois saber a teoria, eu já sabia, mas ver na prática, é muito mais tocante.

Casal S2

Casal S2

A Fazenda Nata da Serra está localizada no município de Serra Negra, São Paulo. Serra Negra fica próxima às cidades de Socorro e Lindóia, no nordeste do estado. A Famesp disponibilizou o transporte para os alunos do curso, mas como poderíamos levar acompanhante, desde que em transporte próprio, fomos Sr. Meu Marido e eu na nossa super máquina. Levamos quase três horas da nossa casa até à Fazenda, seguindo pelas Marginais Pinheiros e Tietê e posteriormente Rodovia dos Bandeirantes, Anhanguera e Dom Pedro II.

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Chegando lá, fomos recebidos pela proprietário da Fazenda, o engenheiro agrônomo Ricardo Schiavinato. Ele e sua esposa, Fernanda, aguardavam ansiosamente pela chegada de todos para cumprir a programação de comida deliciosa – and orgânica, caseira e fresca – e conhecimento abundante.

Vista da Sede da Fazenda Nata da Serra: lado de piscicultura. Garrafas PETs são utilizadas para afastarem aves que comem os peixes antes da idade adulta.

Vista da Sede da Fazenda Nata da Serra: lado de piscicultura. Garrafas PETs são utilizadas para afastarem aves que comem os peixes antes da idade adulta.

 

Após um maravilhoso café da manhã com queijos, manteigas, requeijão e iogurtes e pães caseiros, o Ricardo reune todos para contar sua história, suas práticas e crenças. A Fazenda Nata da Serra, com uma área de 100 ha, foi adquirida pelo Ricardo logo após a conclusão da faculdade, nos anos 80. As terras estavam abandonadas e foi iniciado um longo processo para que se tornasse uma terra fértil e rentável.

Conversa descontraída e didática com Ricardo Schiaventato

Conversa descontraída e didática com Ricardo Schiavinato

A troca da cultura convencional para a orgânica

Ricardo conta que após quase 10 anos de investimento maciço de conhecimentos adquiridos na faculdade, tempo e dinheiro, sem que o balanço fosse positivo, ele estava prestes a desistir. Até que um dia seu pai chama a atenção para o uso de químicos e o não consumo da produção ainda na plantação. A produção convencional tem como base os agrotóxicos e muitos são aplicados pouco antes da colheita.

Teoricamente os agrotóxicos não serão um problema para quem os vier a consumir depois de dias, considerando embalagem, transporte e venda, mas não podem ser consumidos logo após a aplicação, fazendo com que o próprios agricultores não consumam aqueles vegetais.

Diante da reflexão proposta, ao mesmo tempo em que um amigo dava os primeiros passos na produção de orgânicos, em 1996. Ricardo então se aproxima da cultura de orgânicos, e como confessa, com muita descrença. O manejo de orgânicos, seja na produção de carnes, ovos, laticínios ou vegetais, é contrária a tudo que é disseminado na agricultura e pecuária tradicionais, ainda mais nas universidades.

Vacas leiteiras

Vacas leiteiras

 

Claro que há um movimento de mudança, e até presenciei um estudante de agronomia de uma universidade do centro-oeste na reunião do Insituto Atá (conto tudo nesta postagem), mas ainda é um movimento minoritário. Imagino como foi difícil a decisão e migração ainda no início deste movimento.

Já se passaram 20 anos desde que a Fazenda Nata da Serra iniciou o cultivo de orgânicos, com transição completa em 1998. O que vi foi um produtor apaixonado e entusiasmado pelo caminho que decidiu trilhar. O manejo orgânico é um conjunto de técnicas que exige conhecimento e testes.  Está longe dos cultivos dos séculos passados, com base empírica. Ao final da conversa, partimos a pé para conhecer o terreno. A propriedade tem aproximadamente 30% de sua área produtiva e o restante com áreas de quebra-vento, proteção de solo, mata nativa e manutenção do ecossistema.

Ricardo explicando com entusiasmo o manejo das dóceis vacas jersolandas

Ricardo explicando com entusiasmo o manejo das dóceis vacas jersolandas

Produção de laticínios

 

Começamos com as vacas Jersolanas, híbridas das raças Jerseys e Holandesas, que comiam ração e logo se atentaram para nossa presença. [Confesso que foi um daqueles momentos em que repenso o meu hábito de comer carne, pois estar próximo de tais animais, curiosos e pacíficos, traz uma certa culpa.] Ricardo explica o manejo do gado, a divisão do pasto para evitar o uso de carrapaticidas, a alimentação a pasto com complementação com ração feita na própria fazenda, obviamente orgânica.

Pasto com divisões para evitar propagação de carrapatos

Pasto com divisões para evitar propagação de carrapatos

Juro que nunca tinha pensado que pasto também tem safra! Pois é, e por isso é necessário a complementação em determinadas épocas, como nos meses mais frios.

Plantação de Abobrinha Italiana (sob plástico escuro) e Vagem

Plantação de Abobrinha Italiana (sob plástico escuro) e Vagem

A terra

Deixamos as vacas no seu pasto e fomos para os vegetais. Vimos as plantações de abobrinha italiana e vagem, alem da horta de couve e alface, as estufas de tomates. Na fazenda ainda há café, laranja, mel e outras frutas. Além das plantas comercias, há a produção para consumo das famílias que ali vivem, como hortaliças, frutas, legumes e ovos.

Reparem no tamanho dos alfaces e couves!!!

Reparem no tamanho dos alfaces e couves!!!

Ricardo explicou como é a rotatividade dos cultivos, para que na mesma terra haja a produção comercial, milho para os animais e adubo verde. Cada um com ciclo de 4 meses. Ou seja, a terra só produz vegetais para venda 4 meses por ano. Um verdadeiro absurdo dentro do manejo tradicional. Para a proteção das plantas, a cada lote são plantadas árvores que atuam como quebra vento. Neste momento, Ricardo ressalta a importância da rotatividade de culturas para revigoramento do solo sem o uso de aditivos industriais. Parece que a conta não vai fechar, mas fecha. E com benefícios para os agricultores, para o meio ambiente e para os consumidores.

Cultivo de tomates orgânicos em estufa

Cultivo de tomates orgânicos em estufa

Terminamos nossa andança pelas estufas de tomates. Que coisa mais linda! Ricardo explica todo o manejo, da plantação à colheita. Mostrou as guias, os fitilhos nas fotos, que fazem com que a planta cresça reta. E tem ainda a retirada dos brotos e a maturação da planta. Tudo exatamente igual ao cultivo tradicional.

Tomates verdes ainda no pé (imagem de Teresinha Dotto)

Tomates verdes ainda no pé (imagem de Teresinha Dotto)

 

Tomateiro Orgânico

Tomateiro Orgânico

A diferença do cultivo orgânico para o convencional é a utilização de outros métodos para evitar e eliminar possíveis pragas. Além do uso de adubo proveniente da própria fazenda, com esterco das vacas e aquele adubo orgânicos que citei há pouco.

Flor do Tomateiro

Flor do Tomateiro

Retornamos repletos de informações e maravilhados com as variedades de espécies que compõe o ecossistema local. A nossa espera, na sede, um almoço maravilhoso com produtos locais e orgânicos, que preencheu nossas barrigas e espíritos.

Almoço na Fazenda: comida caseira e orgânica (imagens de Teresinha Dotto)

Almoço na Fazenda: comida caseira e orgânica (imagens de Teresinha Dotto)

E antes de voltarmos para a selva de pedra, uma comprinha básica de produtos da Nata da Serra. Eu aproveitei e trouxe mel, manteiga, requeijão, queijo mussarela, queijo minas padrão e iogurte. Nem sei qual produto que me encantou mais! Sabor e qualidade em tudo, só pude agradecer por não ser intolerante à lactose.

Minha turma com a coordenadora do curso, Luciana Abreu.

Minha turma com a coordenadora do curso, Luciana Abreu.

Para conhecer mais sobre a Fazenda Nata da Serra, explore o site deles clicando AQUI. É possível o agendamento de visitas em grupo para turismo rural e pedagógico. Se você está em São Paulo, eles participam da Feira do Parque da Água Branca. Mais informações AQUI.

Não poderia deixar de falar: não há nada que possa ser feito para transformar um alimento em orgânico após a colheita! Tem pessoas que falam (prefiro não citar nomes para não dar visualizações para este tipo de absurdo) que há formas de retirar os agrotóxicos e em alimentos quase orgânicos, mas ser orgânico não é apenas não utilizar agrotóxicos, e sim todo um sistema de manejo do solo, plantas e animais, respeitando o ecossitema. Ou seja: ou nasce orgânico ou não é orgânico!

Também significa não usar fertilizantes industriais, que serão absorvidos pelos alimentos a nível celular. Os benefícios não estão apenas nos alimentos que chegam aos consumidores, mas também no campo. No agricultor que não está sendo envenenado diariamente. Na água que chega a cidade sem contaminação. No solo que está nutrido e nutrirá a planta, que nos alimentará.


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